Vidago Palace Hotel: por aqui não passou o tempo

Começamos o Bloco de Rotas no Norte de Portugal, com uma viagem a Norte a um dos melhores hotéis portugueses – o Vidago Palace Hotel.

Encomendado pelo diplomata Rei D. Carlos ao arquiteto Ventura Terra por intermédio da Empresa das Águas de Vidago, concessionária das termas, previa inicialmente a instalação do hotel no cimo da montanha, sendo a ligação efetuada por um ascensor funicular ou teleférico por determinação do

Um antigo postal ilustrado do Vidago Palace Hotel

Um antigo postal ilustrado do Vidago Palace Hotel

arquiteto.  Esta solução, semelhante à encontrada para o santuário do Bom Jesus do Monte em Braga, seria abandonada quase de imediato por se revelar extremamente dispendiosa, tendo o projeto por isso sido reencaminhado para adaptação (e controlo de custos) para o arquiteto António Rodrigues da Silva Júnior, cujas obras mais significativas se encontram no eixo Estoril-Cascais. Mesmo assim, com as alterações ao esboço inicial o projeto viria a ser adjudicado por uma «verba astronómica», à época 300 contos de reis.

Como investidores na nova estância de luxo interviram os Condes de Mendia e de Caria, os banqueiros Fonseca, Santos e Vianna e o conselheiro Teixeira de Sousa, último Presidente do Conselho de Ministros da Monarquia. Estava lançada a primeira pedra de um empreendimento que seguia o desejo do monarca D. Carlos I de construir uma estância para receber com toda a pompa e circunstância em Portugal os mais notáveis e influentes estadistas e aristocratas europeus do início do século XX.

Com o regicídio de fevereiro de 1908 D. Carlos nunca chegaria a ver o seu sonho tomar forma, para dois anos mais tarde a tragédia voltar a cruzar os destinos da monarquia em Portugal e do Vidago Palace Hotel. A inauguração a 6 de outubro de 1910 não contaria com os principais padrinhos do empreendimento por força do golpe republicano que culminou com o assassinato do sucessor do monarca D. Manuel II.

Apesar de nunca ter recebido a Coroa Portuguesa, e daí nunca ter sido lavrada nenhuma inscrição num dos elementos decorativos que coroam a porta principal de entrada no Vidago Palace Hotel, esta unidade hoteleira seria reconhecida como o hotel mais luxuoso da Península Ibérica ao longo de diversos anos.

A imponência do Vidago Palace Hotel num registo antigo de um postal ilustrado

A imponência do Vidago Palace Hotel num registo antigo de um postal ilustrado

A revista ‘Ilustração Portuguesa’, referencial na época, descrevia ainda o Palace como um hotel com secções de banho de imersão e duche em todos os seus pisos, e uma novidade: «Além disso não há sala ou quarto, na enorme vastidão do edifício, que não tenha telefone, comunicando com a central, que fazia as ligações, com o pessoal da casa ou qualquer outra sala ou quarto. Os telefones representando uma inovação em hotéis portugueses, constituem uma raridade mesmo em hotéis no estrangeiro».

A preciosa descrição retrata ainda uma das cozinhas onde «um corpulento fogão de moderno fabrico, em que pode cozinhar-se para 500 pessoas, com caldeiras de pressão, que chegam para abastecer de água quente os banhos de todos os andares. O trem de cozinha, em cobre, é de 3000 quilos de peso». 

O parque e o campo de golfe

O desenvolvimento desta estância termal prosseguiria, em 1936, com a abertura de um percurso de golfe de 9 buracos, projetado pelo famoso arquitecto escocês de campos de golfe Philip Mackenzie Ross, desenhado entre um parque com 100 hectares de frondosas e raras espécies arbóreas onde ainda hoje no outono é frequente a companhia dos esquilos que pontuam na caça às castanhas, castanhas-da-Índia e nozes. No parque, é possível também apreciar a invulgar arquitetura dos sanitários públicos, das três fontes e dos dois lagos, que intactos permanecem à passagem do tempo.

Visitar o parque no outono proporciona imagens como esta

Visitar o parque no outono proporciona imagens como esta

Nem a Segunda Guerra Mundial deixaria de atrair hóspedes a esta estância trasmontana, dado o papel aparentemente estável e neutral de Portugal no conflito.

Com o passar dos anos, o Palace de Vidago (como muitos lhe chamam) continuou a brindar os seus hóspedes com todo o glamour e charme que ainda hoje tão bem ostenta. Nas décadas de 50 e 60 os chás dançantes e os passeios no parque constituíam as principais atrações, tendo mais tarde, no início da década de 80, e por ora de uma manutenção menos cuidada e outras tantas manobras arriscadas de engenharia financeira por parte da empresa concessionária das águas de Vidago atirariam o imponente Palace para um titânico abismo do qual parecia não mais recuperar.

Século XXI, um novo fôlego para Vidago

Com a entrada da Unicer para proprietária das unidades hoteleiras de Vidago e Pedras Salgadas o Palace sofreu a sua segunda inauguração, em ano de comemoração do seu primeiro centenário, no mesmo dia 6 de outubro, mas desta feita de 2010.

A imponência do Vidago Palace Hotel tal como o encontramos mal passamos o portão

A imponência do Vidago Palace Hotel tal como o encontramos mal passamos o portão

Chamados à intervenção Siza Vieira, responsável pela adaptação da Club House do Clube de Golfe que utiliza um edifício de 1886, onde se encontram a loja, os balneários e ainda um bar e um restaurante de apoio e no spa/piscina anexos ao corpo principal do Vidago Palace. Os premiados arquitetos de interiores José Pedro Lopes Vieira e Diogo Rosa Lã revigoraram o charme da belle époque nos amplos salões do Palace e nos 70 quartos e suites desta unidade hoteleira, com o auxílio da Bastidor, conhecida empresa de decoração do Porto que para aqui disponibilizou mais de 100 referências de tecidos, estando as paredes forradas a papel pintado à mão de inspiração romântica do fabricante Farrow & Ball onde as imagens contam histórias.

Assinatura de Siza Vieira prolonga-se às garrafas de água

A água levemente gaseificada de Vidago dado o baixo teor de CO2 torna-se muito leve e fácil de beber. A sua composição mineralmente muito rica e equilibrada confere-lhe um sabor é muito fino e delicado. Partindo destas caraterísticas, e dado o avultado investimento de 60 milhões de euros, a

As duas garrafas de água desenhadas por Siza Vieira

As duas garrafas de água desenhadas por Siza Vieira

Unicer deu um novo alento a esta marca já um tanto ou quanto esquecida da generalidade. O vencedor do primeiro prémio Pritzker de arquitetura, Siza Vieira é o autor do desenho de dois tipos de garrafas de água para revitalizar a marca Vidago.  A garrafa de cor verde transparente tradicional mantém-se orientada para o consumo generalizado, sendo que surge uma nova variante de 0,75 cl destinada a concorrer no segmento premium/gourmet, facilmente reconhecível pela cor branco fosco.

Como chegar a Vidago

Os comboios, que tantos hóspedes apresentou a Vidago, não sobem mais a linha do Corgo que outrora partida da Régua e passava por Vila Real com destino a Chaves. Ainda é possível percorrer a antiga linha de caminhos de ferro em breves trechos a pé ou de bicicleta. Aqui nota-se a descoordenação de se avançar num plano de revitalização do traçado das linhas, com as autarquias, governos sucessivos e regiões de turismo a mais uma vez descurarem o rico património.

A estação de Vidago permanece quase intacta, apenas acusando a passagem dos implacáveis anos do esquecimento a que foi votada, tal como a restante vila. Estagnada, imune à contaminação da modernidade e que parece ter adormecido, numa distante tarde de frio e nevoeiro entre os berços da Serra de Bornes e da Padrela.

A saída da carruagem imaginária do outrora comboio a vapor que por aqui parava faz-se por um túnel de árvores que compõem a alameda que ultrapassa o portão do hotel.

Para quem vem de Lisboa, será inegável o benefício de utilizar a antiga SCUT A24 desde Viseu e percorrer o Douro Vinhateiro, deixando pelos calcanhares a Régua e o Douro.

Para quem vem do Porto, a opção pode passar pela A4 transpondo o Marão como também poderá ser tida em conta a mais confortável (e monótona) opção de seguir a A3 até Famalicão, seguir a A7 em direção a Chaves e depois encontrar-se com a A24 em pleno planalto Barrosão aos ombros de Vila Pouca de Aguiar, e no coração de Ribeira de Pena.

 Conclusão

Para quem já conhecia o Vidago Palace Hotel, será escusado recomendar o regresso. Vidago é assim: apaixona, grava-se na memória e ali permanece intocável à passagem do tempo e dos acontecimentos, tal como um pequeno paraíso. De véspera prepare-se de máquinas e bagagens, acorde cedo, desfrute do parque na íntegra e descubra todos os pequenos recantos.

A sala de pequenos almoços do hotel, outrora salão de festas

A sala de pequenos almoços do hotel, outrora salão de festas

Vidago é encantador em qualquer altura do ano, mas relembramos que é no outono que o esplendor é arrebatador dadas as ricas tonalidades que as folhas das árvores do parque proporcionam.

Para o lanche, algo informal na Club House, em pequeno parque, à lareira, e provavelmente a rever na máquina digital as fotografias tiradas no parque.

Não gostámos!

Perante uma unidade de cinco estrelas, poucas serão as coisas a apontar, mas saltou-nos à vista o desperdício da impressão das edições digitais dos jornais do dia (não será complicada a aquisição de unidades impressas convencionais para consulta dos hóspedes). E além disso, quem visita Vidago não procurará consultar as notícias em alvas folhas de papel A3 quase insensíveis ao toque. O ambiente assim, não agradece!

Por compreender ficou também a disparidade brutal de preços praticados na Club House e no bar do Hotel, e o encerramento da ilha do grande lago.

Mesmo assim, voltaremos a Vidago quando pudermos, já que querer… nunca queremos de lá saír!

Mais informações:

Distâncias:

  • Lisboa – Vidago (recomendado) (A1-A25-A24) – 450 km
  • Lisboa – Vidago (A1-IP3-A24) – 423 km
  • Lisboa – Porto – Vidago (A1-A3-A7-A24) -443 km
  • Porto – Vidago (A3-A7-A24) – 133 km
  • Porto – Vidago (A4-IP4-A24) – 146 km

Em alternativa poderá preferir a antiga estrada Nacional  (N2) para a ligação Vila Real – Vidago. A estrada encontra-se em boas condições, atravessando povoações como Vilarinho da Samardã com ligação à vida de Camilo Castelo Branco, Vila Pouca de Aguiar e Pedras Salgadas. Localidades que visitaremos em próximas ocasiões.

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Fotografias: Restos de Colecção; Meu Vidago e Chaves

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